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terça-feira, 29 de abril de 2008

Os "chumbos" da Ministra da Educação

A Ministra da Educação, aproximando-se o final do ano lectivo, veio a terreno afirmar preto no branco o que toda a gente já tinha percebido ser a sua posição: não se deve “chumbar” alunos, mesmo que não dominem o necessário para absorver os conhecimentos seguintes.

Eu, numa imediata declaração de interesses, informo que pago impostos e não tenho filhos. Logo, sou o primeiro a concordar plena e sinceramente com a Ministra da Educação.

Julgo que faltam umas medidas adicionais, mas o tempo se encarregará de as implementar: ensino gratuito (nos moldes actuais), mas facultativo a todos os níveis; liberalização dos despedimentos por falta de conhecimentos ou incompetência.

O problema da Ministra é passar mensagens de mudança social sem grave dano político. Afinal, ela é engenheira social e tem propósitos que serão inconfessáveis. Vai atingir os seus objectivos muito antes de os verdadeiros interessados reagirem. Conquistou à partida as suas principais vítimas: os pais. Obteve a oposição dos seus principais beneficiários: os professores.

O verdadeiro drama da Ministra, no plano político, é ganhar os professores e perder os pais, antes de concluir os seus propósitos.

Concordando, como já afirmei, com os objectivos, prefiro a verdade. Descodifique-se o discurso da Ministra, limpando-o das mentiras e reflicta-se nos objectivos.

Portugal é um país pobre e gasta muito dinheiro no Ensino (prefiro chamá-lo assim, em vez de Educação). Dinheiro mal gasto, quando gasto com alunos que não querem nada. E só é possível melhorar as condições das escolas e dos professores, se deixar-se de gastar dinheiro em vão com alunos rasca. Como? Não os retendo. Fazendo-os progredir constantemente. Não gastando com a sua retenção.

Segundo contas da Ministra, gastando-se 3000€ com um aluno, por ano, se ele é retido uma primeira vez já custará 6000€ e se voltar a ser retido (Cavaco Silva só foi retido uma vez) já custará 9000€.

Esses custos correspondem, grosso modo, a menos um ou dois computadores, menos dois a três projectores por ano. E equipamentos que serão mais úteis e proveitosos para os alunos que querem alguma coisa. Porque prejudicar os que querem alguma coisa, com os custos que se suportam com os que não querem nada?

Há países ricos (e certamente o são pela sua boa gestão) que não retêm alunos. Quer saibam ou não, vão sempre progredindo. Como pode precisamente Portugal dar-se ao luxo de reter alunos?
Haverá algum drama, catástrofe ou colapso se não se retiver alunos? Não. A vida encarregar-se-á de proceder à sua selecção.

Nesse contexto, o que é preciso corrigir é a capacidade das empresas, e do próprio Estado, poderem despedir com mais facilidade.

Daí ser contra-corrente as medidas recentes do Governo contra a precariedade no trabalho. Enfim, outros no futuro procederão aos devidos acertos.

Não havendo retenções (a que a Ministra, com recurso ao calão, chama de “chumbos”), deixa de haver certificação de competências. Ela própria, já hoje, uma fantasia.

A evolução de conhecimentos é hoje muito mais rápida do que noutros tempos. O que se sabia à saída de uma Universidade nos anos 60 do século passado ainda foi útil durante uns anos, mas hoje é quase tão inútil quanto o que se sabia à saída dos anos 70 e mesmo 80.

Sem um esforço individual e continuado de cada um, todos esses conhecimentos têm hoje menos utilidade do que os adquiridos hoje pela prática de alguns trabalhadores mais empenhados da mesma área de conhecimento. Então, certificação para quê?

Na ausência de certificação atestada pelo sistema de ensino, resta proporcionar às empresas a liberalização dos despedimentos por incapacidade face à evolução dos conhecimentos. Uma liberalização que vai ter de surgir, quer o sistema certifique ou não.

E a Ministra, como Engenheira Social, já previu toda esta realidade futura. Se ao menos fosse sincera...

Compreendo. Ganhava os professores e perdia os pais …

1 comentário:

Anita disse...

JFL... sempre implacável e impecável nos seus juízos!!! Continua, amigo!